Aqui se faz…
11 de agosto de 2009. 18ª rodada do Campeonato Brasileiro. O Grêmio Barueri, que fazia sua temporada de estréia na série A, era dona de uma até então antológica e robusta campanha. Seu técnico, Estevam Soares, pede demissão e assina contrato com o Botafogo, que nesse momento já lutava para não entrar na zona de rebaixamento, em negociação largamente criticada aqui neste blog.
A crítica girou em torno da falta de ética tanto de Estevam quanto do Botafogo, o primeiro por romper com o bom trabalho que fazia no Barueri, revelando falta de compromisso com os colegas de trabalho, e o segundo por fazer valer sua superioridade financeira, numa clara e desrespeitosa demonstração de como o capitalismo selvagem pode corromper o caráter humano.
Feita a negociação, o Barueri, como era de se prever, caiu de produção e foi despencando na tabela, terminando no 11º lugar, apenas quatro pontos à frente do primeiro clube da zona de rebaixamento. E arrisco dizer que se o torneio tivesse mais 4 ou 5 rodadas, a equipe seria uma das degoladas, comprometendo de vez todo o trabalho iniciado no ano anterior. O Botafogo, por sua vez, continuou rateando no campeonato, ficando várias e várias rodadas na zona de descenso, livrando-se do merecido rebaixamento apenas na última rodada (e com a ajuda de um jogador dopado, flagrado no exame por uso de crack). Terminou o campeonato na mesma posição em que Estevam Soares o assumiu, qual seja, a 15ª. Em resumo, o trabalho de Estevam no Botafogo foi uma nulidade completa, mas os dirigentes do clube, como de hábito na classe dos cartolas, fingiram não enxergar.
Veio o final do ano, conversa daqui, conversa dali, Estevam e Botafogo renovam o contrato para que o “grande trabalho” da “sumidade” Estevam Soares tenha continuidade, e leve a Estrela Solitária de volta ao caminho dos títulos.
Começa então o Campeonato Carioca, e o Botafogo vence as duas primeiras partidas, contra Macaé e Friburguense, mas sob fortes críticas da imprensa esportiva, deixando claro que os triunfos deram-se muito mais em razão da fragilidade das equipes adversárias do que pelo futebol apresentado pelo alvinegro. E, como numa tragédia anunciada, o primeiro clássico dá um banho de realidade na torcida, no time e nos dirigentes do clube: Botafogo 0 x 6 Vasco.
25 de janeiro de 2010. Dia seguinte ao fechamento da 3ª rodada do Campeonato Carioca. Humilhado por um de seus arquirrivais cariocas com um chocolate de ficar marcado na história, o Botafogo demite sumariamente o técnico Estevam Soares, menos de um mês depois de renovar o contrato para até o final de 2010. E ele, atônito, declara para os jornais que “foi pego de surpresa”.
É, Estevam… aqui também se paga!
Tudo novo de novo
Depois do recesso de fim de ano, o futebol brasileiro retoma suas atividades, com o tradicional início dos campeonatos estaduais. E o Campeonato Carioca 2010 começou bem para os quatro grandes clubes.
No sábado, o Vasco penou para vencer o modesto Tigres pelo placar mínimo, 1×0, assim como o Botafogo teve dificuldades para vencer, de virada, o emergente Macaé, pelo placar de 3×2. No domingo, foi a vez das estréias da dupla Fla-Flu, que já despontam como favoritos ao título. O rubro-negro também passou sufoco mas, mesmo com um homem a menos, virou o jogo pra cima do Duque de Caxias com um gol no finzinho, e venceu a partida por 3×2. Já o Flu, começou o ano animando a torcida ao apresentar o futebol mais envolvente da primeira rodada, e atropelou o Americano, em Campos, por 3×0.
A grande decepção da rodada ficou por conta do América. Depois da empolgante campanha na segundona do ano passado, que lhe deu novamente um lugar na elite do futebol carioca, seus modestos, porém fanáticos torcedores tiveram que amargar uma estréia nada agradável, com uma derrota por 2×1 para o Madureira.
Além dos quatro grandes e do América, o único outro clube a disputar o campeonato deste ano com a credencial de já ter sido campeão carioca é o Bangu. E sua estréia foi a mais decepcionante de todas, pois levou 3×0 do Boavista, da modesta cidade de Saquarema.
Mas este é apenas o começo. Os grandes confirmarão seu favoritismo? O América voltará a ser forte como se esperava? O Bangu será saco de pancadas novamente? Façam suas apostas.
Futebol do Rio em alta
Pode-se dizer que o ano de 2009 foi um ano para o carioca se orgulhar do seu futebol.
A temporada terminou para os clubes brasileiros, e o saldo foi altamente favorável aos clubes do Rio de Janeiro. E não só para os grandes.
A principal conquista foi o título do Brasileirão 2009 pelo Flamengo. Com uma equipe cheia de limitações, mas tendo na contratação do sérvio Petkovic um divisor de águas no desempenho do time ao longo do campeonato, o clube mais popular do estado soube aproveitar os vacilos de São Paulo, Intenacional, Palmeiras, Cruzeiro e Atlético-MG, e levantou a taça do torneio mais importante do país pela 5ª vez (os flamenguistas e a imprensa de um modo geral falam em hexacampeonato, mas a CBF creditou o título do Brasileirão de 87 ao Sport Clube do Recife… mas isso é discussão para outro post). Apesar de ter ficado o campeonato quase inteiro ocupando posições intermediárias na tabela, entrou no G4 quando faltavam menos de 10 rodadas para o fim, e assumiu a liderança somente na penúltima rodada. Mas não morreu na praia.
O Vasco da Gama, por sua vez, faturou o título da 2ª divisão com folgas, e em 2010 voltará à divisão de elite do futebol brasileiro. Valeu o peso da cruz de malta na camisa, pois mesmo com um plantel que contava com apenas uma grande estrela (Carlos Alberto), o time de São Januário passeou entre os clubes da série B, fazendo a festa da galera vascaína.
A façanha mais impressionante, no entanto, parece ter sido mesmo a do Fluminense. Depois de um início de ano desastroso, os últimos três meses do ano reservaram fortes emoções para a torcida tricolor. Além de chegar à final da Copa Sulamericana, o time operou um verdaderio milagre no Brasileirão, contrariando a lógica, a matemática e as “sentenças de morte” decretadas por unanimidade pela imprensa esportiva. Da mesma forma que na Libertadores de 2008, e para o mesmo algoz (a LDU do Equador), o Flu perdeu a final do segundo torneio mais importante da América do Sul. Mas no Brasileirão, conseguiu com extrema valentia manter-se na divisão de elite, numa arrancada de 11 partidas sem derrota (7 vitórias e 4 empates) nas últimas rodadas, obtendo um aproveitamento de aproximadamente 76% dos pontos (espantosamente maior do que o aproveitamento do campeão durante todo o campeonato, que foi de 58%). Sim, a equipe que começou o campeonato como titular era uma, e a que terminou foi outra (apenas o argentino Dario Conca se manteve). E essa que terminou pode muito bem se autodenominar “campeã moral de 2009″.
O Botafogo, juntando os cacos do péssimo ano que teve com as eliminações precoces em torneios importantes como Copa do Brasil e Sulamericana e com a perda do título estadual pela terceira vez consecutiva para o Flamengo, brigou para não ser também rebaixado à 2ª divisão do Brasileirão, mas conseguiu se manter aos trancos e barrancos, graças às heróicas vitórias nas últimas rodadas, sobre São Paulo e Palmeiras no Engenhão, e sobre o Internacional no Beira-Rio (vitórias que colocaram a taça de campeão no colo do rival Flamengo), para alívio de sua torcida. Dos quatro clubes mais importantes do Rio, o alvinegro é o que mais precisa de reformulação para 2010, pois se apresentou de forma extremamente irregular durante o ano de 2009 inteiro.
De quebra, o futebol carioca ainda pode comemorar três outros fatos importantes:
1) o América, time que goza do carinho de boa parte dos torcedores dos quatro acima, voltou à divisão de elite do campeonato estadual, e promete, com a ajuda de Romário, fazer bonito em 2010;
2) o Duque de Caxias, debutante na série B do Brasileirão, não só se manteve entre os 40 melhores clubes do Brasil, como ficou em um honroso 8º lugar, à frente de clubes tradicionais como Ponte Preta, Bahia (campeão brasileiro de 1988) e Juventude (campeão da Copa do Brasil de 1999). Este último, diga-se de passagem, amargou o rebaixamento à série C; e
3) o Macaé, que depois da bela campanha no Estadual 2009 obteve o direito de disputar pela primeira vez o Brasileirão, também debutou de forma honrosa e ficou com o vice-campeonato da série D, o que lhe garantiu o acesso à série C em 2010.
Definitivamente o futebol do Rio, mesmo atolado em dívidas, sofrendo com as mazelas de diretorias amadoras, desorganizadas e comprometidas com interesses inescrupulosos de empresários, está em alta.
Eu acredito!*
Sim, eu acredito!
Podem me chamar de louco, de sonhador, de ingênuo, de crédulo… chamem do que quiserem! Eu me chamo de torcedor!
Porque torcer é exatamente isso: acreditar até mesmo no improvável! E torcer para o Fluminense, é ter esperança acima de qualquer outro sentimento. É acreditar até o último minuto na superação, em forças ocultas do bem. É acreditar no Sobrenatural de Almeida, personagem do além criado e imortalizado por Nelson Rodrigues, e responsável pelos gols mais improváveis, que por diversas vezes deram títulos ou salvaram a pele do Tricolor das Laranjeiras.
E por ser torcedor tricolor, eu professo, contra todos os prognósticos de especialistas do futebol, jornalistas esportivos e matemáticos de plantão: o Flu não vai cair!!!
* Este post foi escrito em 02/10/2009, quando o Fluminense ocupava a lanterna do Campeonato Brasileiro de 2009, e os matemáticos calcularam que o clube tinha 99,7% de chances de ser rebaixado. Sua publicação somente agora deve-se à minha ausência do país e absoluta falta de tempo para dedicar-me ao blog nesse período.
Tal pai, tal filho… em quase tudo.
Nelson Piquet, não há como negar, foi um piloto de talento considerável na Fórmula 1. Afinal, ninguém passa por essa categoria e leva para casa três títulos mundiais se não for um bom piloto, ainda mais na década de 80, quando o piloto fazia muito mais diferença na categoria. Mas o tamanho de sua habilidade na direção era proporcional ao tamanho da sua capacidade de gerar antipatia, até mesmo por parte dos torcedores brasileiros. Antipatia que, diga-se de passagem, sempre foi plenamente justificada, pois são notórios o seu mal-humor e a sua grosseria, sem falar que pesam contra ele acusações de conduta antiética, como a de “puxar o tapete” do então novato Ayrton Senna, usando de sua influência política na categoria para forçar Frank Willians a não contratá-lo para sua equipe.
Bem, parece que esse probleminha de caráter se transmite de forma hereditária.
Nas últimas semanas, os bastidores da F1 foram incendiados pela polêmica envolvendo a equipe Renault e um de seus pilotos, justamente o Nelson Ângelo Piquet, filho do tricampeão. A equipe está sendo acusada de “armar” um resultado, obrigando Nelsinho Piquet a forjar premeditadamente um acidente no GP de Cingapura da temporada passada, com o objetivo de favorecer o outro piloto da equipe, o espanhol Fernando Alonso, que venceu aquela corrida. E ontem foi divulgado o depoimento de Nelsinho à comissão de investigação da Federação Internacional de Automobilismo.
A equipe Renault nega, mas Nelsinho sustenta em seu depoimento que, na véspera do GP, foi “convidado” pelos diretores da equipe a provocar um acidente durante a corrida, gerando a entrada do Safety Car e favorecendo a vitória do seu companheiro de equipe. Pior do que isso, Nelsinho confessa que aceitou participar da armação e jogar seu carro contra o muro de propósito, justificando que estava sob enorme pressão psicológica exercida pelo chefe da equipe, Flávio Briattore, que retardava a assinatura da renovação de seu contrato. Pelas palavras do próprio Nelsinho, ele concordou em participar dessa manobra imoral por crer que ganharia pontos junto à direção da equipe, e teria garantida a renovação do seu contrato.
Nelsinho quis parecer vítima, mas não há nada neste caso que possa colocá-lo como tal. Ele confessou, com todas as letras, que concordou com uma jogada imoral para garantir seu futuro na equipe. Isso ultrapassa todos os limites da falta de ética. Além de ter sido desleal com a torcida brasileira e com os seus companheiros de profissão, revelou-se indigno de confiança daquele que o emprega, pois guardou esse segredo com ele até que sua situação na equipe fosse insustentável. Ele é protagonista do “crime”, não vítima.
Sua conduta foi uma vergonha para o Brasil manchando a imagem dos esportistas brasileiros e dando um péssimo exemplo às novas gerações. Nelsinho é filho de um tricampeão mundial de F1, nasceu em berço de ouro, com todas as mordomias e oportunidades na vida. Vender a sua integridade por causa da renovação de um contrato na F1? Inaceitável! Se isso partisse de alguém que passou fome na infância, ainda assim seria criticável, mas pelo menos seria compreensível. Mas ele não. Ele não morreria de fome se perdesse o emprego na Renault por se manter íntegro, fiel aos valores morais que devem pautar a vida de um homem. Ele sequer tem filhos para justificar que “precisava prover o leitinho das crianças”.
Ao saber do teor do depoimento de Nelsinho, o seu compatriota Rubens Barrichello declarou que, se for verdade o que ele diz, ele não merece estar na categoria. E não merece mesmo! Alguém aí pode dizer: “ah, mas Rubinho também deixou Schumacher passar naquele GP da Áustria de 2002″. Mas pelo menos ele fez isso de forma explícita, freando escancaradamente na reta de chegada, para que todos vissem a ordem imoral que ele recebeu, mesmo sabendo que essa atitude poderia custar sua cabeça na equipe Ferrari. Nelsinho guardou segredo por quase um ano, e só revelou porque foi dispensado pela Renault no mês passado.
Prova viva de que dinheiro e fama não dão caráter a ninguém, Nelsinho entrará para a história como um garoto mimado e sem escrúpulos, e o fim de sua carreira como esportista seria, no mínimo, uma questão de justiça, pois sua falta de ética o transforma numa pessoa indigna de idolatria. Tal pai, tal filho… quer dizer, em quase tudo… o pai ao menos pilotava bem.
Nasceu!!!
Prematuro, é verdade, mas nesse caso a notícia é positiva! Depois de esperar agoniada por oito meses (quase o mesmo período que uma gestação), a torcida tricolor enfim pode comemorar o nascimento da consciência nas Laranjeiras.
A campanha “Fora Edcarlos” fez eco, e a recompensa veio com uma faísca de bom senso no meio do caos em que se transformou o Fluminense desde a traumática final da Libertadores de 2008. Cliquem aqui para conferir a boa nova!
* Foto original: Globo.com.
Vox populi, vox Dei
Já professa o brocardo latino: “a voz do povo é a voz de Deus”. Vejam aqui como a campanha ”Fora Edcarlos” está ganhando adeptos!!!
E o inverno esquenta o Brasileirão 2009
Julho é mês mais rigoroso do inverno brasileiro. Mas o frio fica só no clima mesmo, porque no Campeonato Brasileiro, é exatamente quando o torneio começa a esquentar.
Transcorrido tecnicamente um terço do total de rodadas (13 de 38), algumas equipes já começam a despontar como favoritas ao título, outras já estão com o sinal de alerta no nível máximo, flertando com o rebaixamento. E, claro, há surpresas.
A sensação até o momento é o Atlético Mineiro, que não figurava entre os favoritos antes do início do campeonato. Mas com um time taticamente bem arrumado, tendo como ponto alto o bom preparo físico dos atletas, e contando com o artilheiro Diego Tardelli na melhor fase de sua carreira até o momento, o Galo ocupa a liderança isolada com 28 pontos, e estatísticas incontestáveis: maior número de vitórias, uma única derrota, segundo melhor ataque e defesa menos vazada.
Palmeiras (25 pontos), Internacional (24 pontos) e Corínthians (23 pontos) completam o chamado G4, o grupo dos quatro primeiros que garantem vaga na Taça Libertadores de 2010, e também figuram como favoritos ao título.
Como o Timão já tem a vaga garantida em razão da recente conquista da Copa do Brasil, a última vaga na Libertadores sobraria para o 5° colocado. E aí vem a primeira surpresa desse campeonato: o Barueri, equipe estreante na Série A, é o atual 5° colocado, com 22 pontos. Não bastasse a colocação avançada, o modesto time do interior de São Paulo tem o melhor ataque da competição e o artilheiro do campeonato, Val Baiano.
Vitória, Goiás e Grêmio, com 21, 20 e 18 pontos respectivamente, seguem perto do G4, alternando bons jogos com outros nem tanto. Santos, Santo André e Flamengo, todos com 17 pontos, ocupam o meio da tabela, com atuações bastante irregulares. Os três primeiros estão num bom momento, e tem tudo para se manter na parte superior da tabela. Os três últimos, ao contrário, passam por dias conturbados, inclusive com episódios de demissão de treinador, caso do Santos e do Flamengo. Podem ganhar moral e brigar pelas primeiras posições tanto quanto entrar de vez na crise e se aproximar da chamada “zona da degola”.
E falando em zona da degola, todos os demais clubes ainda não mencionados já flertaram com o rebaixamento ao menos por uma ou duas rodadas. O Avaí, com 16 pontos, já foi o lanterna há algumas rodadas, mas mostrou força vencendo os últimos três jogos, e começa a se afastar das posições derradeiras. Coritiba e São Paulo têm 15 pontos, e não conseguiram ainda emplacar uma boa sequência de jogos. O São Paulo, atual tricampeão do torneio, demitiu o treinador Muricy Ramalho, que conquistara com o clube os Brasileirões de 2006, 2007 e 2008. O Cruzeiro tem 13 pontos e o Sport vem logo depois, com 12, ocupam as últimas posições fora da zona de rebaixamento e também sofrem com as muitas atuações abaixo da crítica. O Cruzeiro parece ter melhores condições de sair dessa situação incômoda, mas o ânimo da equipe anda abalado após a perda da final da Libertadores desse ano para o argentino Estudiantes.
Finalmente, o grupo que vem mantendo um relacionamento íntimo com a zona de rebaixamento, e atualmente ocupam as quatro últimas posições, para desespero de seus torcedores. Atlético Paranaense e Botafogo, com os mesmos 12 pontos do Sport, estão há várias rodadas na malfadada zona. O Furacão, aliás, está na ZR desde o início do campeonato. Já a equipe carioca, nem foi derrotada tantas vezes, mas também só conseguiu vencer duas partidas em 13 jogos, e os muitos empates acabam por mantê-la na rabeira da competição.
O Fluminense é um típico caso de tragédia anunciada. Com apenas 10 pontos conquistados, conseguiu se manter em boas colocações até a 8ª rodada, ocasião em que podia se orgulhar de ter, em números, a terceira melhor defesa do torneio. Mas suas atuações eram incapazes de convencer até o mais alienado dos torcedores. Desde então, as limitações técnicas e táticas do time ficaram a cada rodada mais evidentes, e a equipe amargou uma impressionante sequência de cinco derrotas, que o fizeram despencar para a penúltima colocação, com demérito de ter, no momento, o pior ataque e a segunda pior defesa da competição.
Segunda pior defesa. Porque a pior delas está nas mãos do Náutico, que por conta disso ocupa a última posição do Brasileirão 2009, também com 10 pontos. Sem vencer desde a terceira rodada, quando ocupava a vice-liderança, o clube pernambucano também veio em queda livre desde então, e a única luz que seus torcedores conseguem ver não é a do fim do túnel, e sim a da lanterna que a equipe segura no momento.
Mas é agora que o campeonato começa a ferver, e ainda há tempo para mudanças radicais de desempenho, para melhor ou para pior, sobretudo em razão das tranferências de jogadores para o futebol europeu, que ocorrem exatamente nos meses de julho e agosto. Só depois cada clube dirá realmente a que veio no Brasileirão 2009.
Contra fatos não há argumentos
Foto: Globoesporte.com
Renato Portaluppi. Esse é o nome da mais nova esperança da torcida tricolor. Bem, ”nova” é força de expressão. Porque Renato Gaúcho não tem nada de novo no Fluminense. Ao contrário, tem uma relação antiga e cheia de altos e baixos no clube.
Desde 1995, o gaúcho mais carioca que já existiu na face deste planeta passou diversas vezes pelo clube, como jogador e como técnico. Jogador guerreiro dentro de campo e altamente indisciplinado fora dele, transformou-se num técnico sério, no maior estilo “faça o que eu digo, mas não faça o que eu fiz”. Todavia, manteve intactos o seu estilo polêmico e sua personalidade dotada de uma empáfia ímpar. Mas é daquelas criaturas que, mesmo reunindo todos os motivos do mundo para se nutrir uma especial antipatia, termina por gerar o oposto, ou seja, torna-se uma figura simpática e admirável, de tão intrigante.
Não posso esconder: sim, eu gostei muito da recontratação dele como técnico do Fluminense. E o motivo é nítido. Renato Gaúcho tem os seus defeitos, e passou seus momentos de fracasso no Fluminense, mas sua história com o clube possui inúmeros momentos felizes e inesquecíveis, momentos de sucesso que superam os de fracasso. E contra fatos não há argumentos!
Em 1995, foi contratado como estrela veterana de uma equipe desacreditada, e comandou o time dentro de campo, com garra e muitos gols decisivos, inclusive o antológico gol de barriga, no Fla-Flu que deu o título estadual daquele ano ao tricolor, quebrando assim um jejum de 10 anos sem conquistar nenhum torneio. Naquele mesmo ano, o Flu fez excelente campanha no Brasileirão, ficando em 4º lugar. Perdeu a semifinal para o Santos, numa daquelas tragédias que só acontecem ao Fluminense, pois depois de humilhar o time paulista no Maracanã, vencendo por 4×1, permitiu que o Peixe devolvesse a humilhação na Vila Belmiro, perdendo o jogo por 5×2.
Anos mais tarde, em 2007, Renato voltou ao Flu como técnico, e pegou o time no meio da disputa da Copa do Brasil. Depois de passar aos trancos e barrancos por América-RN e Bahia, o Flu ficou sem técnico e Renato assumiu o posto, levando o Flu a passar de forma bem mais convincente por Atlético-PR e Brasiliense, para então conquistar o título daquele ano na final contra o Figueirense. Ainda em 2007, o Flu voltou a fazer uma campanha forte no Campeonato Brasileiro, terminando em 4º lugar, o que garantiria vaga na Libertadores de 2008, se o título da Copa do Brasil já não o tivesse feito.
E por último, em 2008, levou o clube a uma histórica campanha na Taça Libertadores da América, que o Flu só perdeu por conta, novamente, de uma verdadeira tragédia (daquelas que só acontecem ao Fluminense…).
Mesmo assim, sua tragetória como treinador do Fluminense é, sem dúvida alguma, vitoriosa, fazendo o clube trilhar caminhos nunca antes percorridos (o título da Copa do Brasil de 2007, e o vice-campeonato da Libertadores de 2008, depois de ter feito a melhor campanha dentre os 32 clubes da primeira fase, de golear um time argentino por 6×0, e de eliminar o temido Boca Juniors).
Por tudo isso, eu só tenho mais uma coisa a dizer: vida longa ao Renato Gaúcho no Fluminense, e toda a sorte do mundo para ele reverter o atual quadro caótico do time.
