Impressões da Copa – fechamento das oitavas-de-final
O fechamento dessa 2ª fase selou um feito histórico para a América do Sul: pela primeira vez passam às quartas-de-final um número maior de sul-americanos do que de europeus (4 contra 3). Dos cinco sul-americanos que começaram o torneio, apenas o Chile está eliminado, e há de se considerar que sua eliminação foi para outro sul-americano, o Brasil. Mas a prova definitiva de superioridade terá que ser agora, pois dos quatro próximos confrontos da Copa, três colocam frente à frente sul-americanos e europeus: Argentina x Alemanha, Brasil x Holanda e Paraguai x Espanha. O quarto será entre um sul-americano e um africano: Uruguai x Gana.
Não houve muita surpresa nos confrontos das oitavas, sendo a vitória de Gana sobre os EUA, talvez, o que mais tenha contrariado os prognósticos de especialistas. Mas pelo equilíbrio entre o futebol mostrado por ambas, o resultado não pode ser considerado uma zebra. Tirando essa vitória de Gana, todos os outros confrontos determinaram a vitória da seleção que se classificou na liderança do seu grupo na 1ª fase. E incluindo Gana, todas as seleções que abriram o placar confirmaram a classificação (o Paraguai, apesar do 0×0 com o Japão no tempo normal, cobrou e converteu o primeiro pênalti da disputa).
Alemanha, Brasil e Argentina foram, nessa ordem, as seleções que mais animaram os torcedores em seus jogos nessa fase, vencendo de forma convincente e, sobretudo, de maneira eficiente, com placares mais folgados. A Holanda, a Espanha e o Uruguai tiveram amplo domínio de suas partidas, mas venceram com diferença mínima de gols. Gana e Paraguai levaram seus torcedores ao extremo da apreensão, principalmente este último. E justamente esse dois classificados são os debutantes em quartas-de-final.
Outra coisa digna de nota é que as oitavas-de-final deram mais tempero à Copa. Os jogos foram mais emocionantes, a média de gols subiu, a qualidade do futebol jogado pela maioria das seleções também subiu, e ainda tivemos duas grandes polêmicas envolvendo erros escandalosos de arbitragem. Erros que reacenderam a discussão sobre o uso da tecnologia para evitar que falhas tão grosseiras manchem o espetáculo, como nas vitórias de Alemanha e Argentina, que em um contexto sem falhas seriam absolutamente inquestionáveis.
Por último, a impressão mais forte que ficou nessa fase é que os finalistas dessa Copa, muito provavelmente, sairão dos confrontos Holanda x Brasil e Argentina x Alemanha, embora a Espanha não possa ter seu favoritismo descartado, e o Uruguai tenha plenas condições de superar as desconfianças que ainda pesam sobre suas chances de título. Para Paraguai e Gana, uma final é um sonho bem distante, e o título uma missão quase impossível. Do jeito que a América do Sul anda com moral, uma inédita final entre Brasil e Argentina é naturalmente esperada. E isso não seria nada mal, concordam?
Oitavas-de-final: Espanha 1×0 Portugal
As zebras realmente não tiveram vez nas oitavas-de-final da Copa da África do Sul. Mais um jogo, mais um favorito que avança, mais um prognóstico bem próximo do que de fato aconteceu. A Espanha foi superior na maior parte do jogo contra Portugal, e fez por merecer o gol da vitória marcado por David Villa, que agora divide a artilharia do torneio com Higuaín (Argentina) e Vittek (Eslováquia), todos com 4 gols marcados.
Com bom toque de bola tanto de espanhóis quanto de portugueses, o jogo foi disputado e relativamente equilibrado, já que Portugal teve suas chances de abrir o placar de forma tão perigosa quanto a Espanha. O pecado da Espanha no primeiro tempo foi buscar apenas jogadas pelas laterais do campo, que não deram muito resultado. Enquanto isso, Portugal seguia meio acanhada, evitando deixar sua defesa sem resguardo. O placar de 0×0 na primeira etapa foi um reflexo da mescla entre o excesso de cautela das equipes e a boa postura de seus respectivos sistemas defensivos. No segundo tempo, o jogo ficou mais franco, e as oportunidades de gol mais frequentes. Portugal se arriscou mais ao ataque, dando espaços na defesa. Na dependência da criatividade de Cristiano Ronaldo, Portugal não conseguiu furar o bloqueio defensivo espanhol e do outro lado a Espanha atacava sempre com perigo e um pouco mais de talento. E num desses ataques, David Villa mais uma vez não decepcionou a torcida, abrindo o placar para a Fúria, que nem esteve tão furiosa assim. Portugal sentiu o primeiro e único gol sofrido na Copa, e quando encontrou forças para esboçar uma reação, se expôs ainda mais na defesa. Essa foi a hora do goleiro português Eduardo aparecer, pois suas defesas salvaram os lusos de levar mais gols dos espanhóis. Mas o sangue mais quente da Espanha se fez valer até o apito final.
Portugal volta pra casa devendo. Mostrou um bom esquema defensivo, mas a aplicação que tem na defesa tira o ímpeto de atacar. O único jogo em que se sentiu confiante para atacar foi contra a fraquíssima Coreia do Norte, resultando na maior goleada da Copa. Nos outros três jogos que fez, entretanto, sua proposta foi se retrancar, e o resultado foi passar em branco em todos eles. Os sete gols que fez na Copa foram todos contra os norte-coreanos. O time ficou invicto na primeira fase e não sofreu um gol sequer, mas a inoperância ofensiva foi tanta que bastou levar um mísero gol para se verem eliminados. Portugal tem potencial, só precisa de um tanto a mais de coragem e autoconfiança, mas agora terá que ficar para a próxima Copa.
A Espanha segue com justiça, mas ainda não mostrou o que se esperava dela na Copa. A dependência dos gols de Villa é crônica (dos cinco gols espanhóis até aqui, quatro foram dele), e os adversários que a Fúria viu pela frente até o momento não serviram para provar se eles podem ser de fato favoritos à conquista do título, e nem o Paraguai nas quartas-de-final servirá para tanto. Ao contrário, perder para a Suíça, marcar apenas dois gols em Honduras e vencer o Chile no aperto levam à direção oposta, de que a Fúria não tem cacife para chegar à final, ainda mais tendo de encarar Alemanha ou Argentina numa provável semifinal. Essa sim, será uma prova de fogo para as pretensões espanholas.
Oitavas-de-final: Paraguai 0×0 Japão (5×3 nos pênaltis)
Os sul-americanos estão mesmo mandando na Copa. O prognóstico foi acertado, embora o Paraguai tenha passado mais sufoco do que o imaginado. O equilíbrio foi tanto que a partida só foi decidida na disputa de penalidades, com o Japão desperdiçando apenas uma cobrança e o Paraguai nenhuma. Apesar do placar em branco, o jogo foi corrido e movimentado, mas a emoção ficou mesmo para o fim do tempo normal, se estendendo para a prorrogação e terminando, no auge, com os pênaltis.
O jogo começou com as equipes evitando se arriscar, preocupadas mais em se defender do que atacar, o que deixou o primeiro tempo bem enfadonho. No segundo tempo as equipes se lançaram mais ao ataque e a partida ganhou em emoção. Mas apesar de toda a evolução que essas equipes obtiveram nos últimos anos, como ressaltado no post anterior, o ataque de ambas não estava muito inspirado hoje, o que levou ao desperdício de muitas jogadas de ataque. Ainda assim, o toque de bola apresentado foi bem mais dinâmico e menos burocrático do que os jogos entre europeus ocorridos nesta Copa (excetuando-se o maravilhoso confronto entre Alemanha e Inglaterra, assim como a parte final do jogo entre Itália e Eslováquia). O tempo normal chegou ao fim com as equipes sentindo o cansaço, mas na volta para a prorrogação, a partida ganhou ainda mais movimentação, e faltou mesmo apenas um capricho melhor na finalização das jogadas para que tivéssemos o prazer de ver a rede balançando, para qualquer um dos lados. Nos últimos cinco minutos da prorrogação, porém, os times estavam já esgotados, e já dava pra sentir que a decisão da vaga seria nos pênaltis. O Paraguai iniciou as cobranças, convertendo as quatro primeiras, e o Japão desperdiçou a sua terceira cobrança, com Komano mandando no travessão. Na quinta cobrança paraguaia, o atacante reserva Cardozo mandou pra rede e selou em 5×3 a classificação de sua seleção.
O Japão dá adeus à Copa de cabeça erguida, mostrando um desenvolvimento forte do seu futebol, não só no aspecto tático, mas principalmente no aspecto técnico, onde o atacante Honda e o defensor Tulio Tanaka se destacaram bastante. Sem dúvida mostrou evolução ao se classificar pela primeira vez para a segunda fase em uma Copa fora de seus domínios. A disputa de pênaltis é cruel, mas é a única maneira de decidir um confronto tão equilibrado quanto foi esse entre paraguaios e japoneses. Como a Coreia do Sul, o Japão deverá ser recebido com festa pela sua torcida pela forma digna com que se apresentou na África do Sul.
E o Paraguai segue em frente, agora motivado pelo feito histórico de ter se classificado pela primeira vez às quartas-de-final. Não tem um futebol tão vistoso quanto os demais classificados sul-americanos, mas sem dúvida alguma fez por merecer chegar onde chegou. O que vier agora, para eles é lucro. Seu ataque ainda está devendo, com Barrios, Valdez e Santa Cruz tendo apresentado muito pouco até aqui. A defesa, por outro lado e como sempre, manteve-se em bom nível, segura e aplicada. Mas as quartas-de-final provavelmente serão o limite para os paraguaios.
Pitacos para as oitavas-de-final (4º dia)
Paraguai x Japão: levando-se em conta o desempenho de ambas na primeira fase, pode-se dizer que esse é o confronto mais equilibrado das oitavas-de-final. O Paraguai tem um leve favoritismo no jogo, muito mais em razão da febre sul-americana que acomete essa Copa. O Paraguai tem um sistema defensivo notoriamente competente (sofreu apenas um gol na 1ª fase) e teve uma considerável evolução no setor ofensivo ao longo da última década. Mas o Japão talvez seja dono do futebol que mais cresceu nos últimos anos, ao lado dos EUA, já que havia muito o que crescer. Acredito que a partida será bem movimentada, veloz e emocionante, até pelo fato de que está em jogo a vaga em uma fase onde nenhuma das duas seleções jamais chegou. E quem deve conquistá-la é o Paraguai, no sufoco.
Espanha x Portugal: a Espanha, não se pode negar, é a favorita para esse jogo. Portugal está invicto, conseguiu segurar o Brasil na primeira fase, mas terá que jogar muito mais do que jogou se quiser superar seus rivais ibéricos. A Fúria, a seu turno, não mostrou ainda tudo do que é capaz, e se vacilar como fez contra a Suíça, verá seu favoritismo ir por água abaixo. Dos dois lados temos jogadores que podem desequilibrar a partida, principalmente Cristiano Ronaldo por Portugal e David Villa pela Espanha. Tem tudo para ser outro confronto bem jogado, com possibilidades gigantescas de ser decidido na prorrogação ou nos pênaltis. Vejo a Espanha mais motivada e com sangue mais quente para seguir em frente, por isso deve confirmar seu favoritismo, embora não sem uma resistência lusitana ferrenha.
Oitavas-de-final: Brasil 3×0 Chile
Aqui o prognóstico foi bem preciso. O Brasil não tomou conhecimento do Chile, e aproveitou o jogo franco dos conterrâneos sul-americanos para impor sua superioridade ofensiva. Com uma apresentação tão boa quanto a do jogo contra a Costa do Marfim, a seleção brasileira fez três gols correndo pouquíssimos riscos de sofrer algum, e poderia até mesmo ter saído com um placar mais elástico.
O jogo teve um nível técnico bem superior ao do duelo europeu no começo do dia, mostrando que o futebol sul-americano está de encher os olhos nessa Copa. O Chile começou tentando surpreender e atacar o Brasil, mas com uma postura firme a seleção pentacampeã logo tomou a iniciativa em suas mãos, e o primeiro gol brasileiro passou a ser uma simples questão de tempo. Ele veio aos 34 do primeiro tempo. E logo em seguida veio o segundo. Com 2×0 no placar, o Brasil voltou para o segundo tempo deixando o Chile atacar mais, para ampliar nos contra-ataques. Valdívia entrou em campo, dando mais periculosidade aos ataques chilenos, mas com uma atuação impecável de todo o seu sistema defensivo, o Brasil logo aproveitou os espaços obviamente deixados pelo Chile para marcar o terceiro. A partir daí, os brasileiros só administraram o bom resultado, e o técnico Dunga aproveitou para sacar do campo os jogadores importantes pendurados com cartão amarelo, como Kaká e Luis Fabiano, poupando também Robinho para o próximo duelo.
O Chile apresentou um futebol gostoso de se ver nessa Copa, mas ainda sente falta de um ataque mais mortal, de atacantes mais decisivos. Sua sorte certamente seria outra nessa Copa se não tivesse que encarar o Brasil logo nas oitavas-de-final. Como já foi aqui ressaltado, o técnico Marcelo Bielsa, que é argentino, tem muitos méritos em fazer do Chile uma equipe tão vistosa e competente. Os chilenos, ao contrário dos eslovacos, farão falta à Copa daqui por diante. Mas não há lugar para todos nas quartas-de-final.
O Brasil segue adiante, depois de um jogo que reforçou o favoritismo brasileiro na briga pelo hexacampeonato. Depende muito de Kaká, Robinho e Luis Fabiano jogando bem no ataque, mas tem seus méritos também numa defesa bem postada, habilidosa e que não brinca em serviço. O maior mérito do Brasil talvez seja a união do grupo, que se reflete numa simbiose muito forte no que diz respeito à qualidade de todos os setores da equipe: gol, laterais, defesa, meio-campo e ataque. O único problema é que essa simbiose pode voltar-se contra o Brasil no momento em que algum dos setores não render como de hábito, pois poderá afetar os demais. Avançou com toda a justiça, e agora terá uma prova de fogo na próxima fase.
Oitavas-de-final: Holanda 2×1 Eslováquia
Pois é. Os favoritos não estão mesmo dando a menor chance às zebras nessas oitavas-de-final. A Holanda manteve o aproveitamento impecável na competição, igualando as quatro vitórias da Argentina. A única diferença é que os laranjas estão jogando um futebol frio e sem brilho, mas preciso e mortal para os adversários até aqui.
O jogo contra a Eslováquia foi quase uma reprise da estreia holandesa contra a Dinamarca. Como era de se esperar, o primeiro tempo foi burocrático, com as equipes mais preocupadas em não abrir espaços para o ataque adversário, e no momento em que a Eslováquia começou a sentir que poderia atacar mais, a Holanda aproveitou um vacilo dos eslovacos num passe longo e preciso de Sneijder para Robben, que dominou bem, enganou os zagueiros e chutou de fora da área no cantinho, para abrir o placar. Com 1×0 no placar, a Laranja Mecânica fez o que mais sabe: cozinhou o jogo em banho-maria durante todo o resto do primeiro tempo, e em quase todo o segundo tempo. Com o fim do jogo se aproximando, a Eslováquia enfim percebeu que só restava a alternativa de ser mais ousada e dar espaços para o contra-ataque. Da mesma forma que os dinamarqueses, acabaram expondo sua defesa e a Holanda deu o golpe de misericórdia, cravando 2×0 aos 39 do segundo tempo, o suficiente para derrubar qualquer esperança dos eslovacos, que só encontraram forças para descontar no último minuto da partida, de pênalti. A cobrança perfeita de Vittek encerrou a partida em 2×1 para a Holanda, servindo apenas para o eslovaco se igualar a Higuaín, da Argentina, como artilheiro da Copa até o momento, com 4 gols.
A Eslováquia deixa a Copa sem mostrar muita coisa além de oportunismo no ataque, principalmente com o artilheiro Vittek e o meia Weiss. A impressão que deixou é que seu futebol não difere muito da maioria das seleções europeias massantes e sem criatividade. Volta com a glória de ter feito contra a Itália o jogo mais importante de sua recente história, e com o orgulho de conseguir passar de fase em sua primeira participação em um Mundial. Mas a Copa de 2010 não sentirá sua falta nas fases seguintes.
A Holanda avança merecidamente às quartas-de-final, se colocando definitivamente como um adversário duríssimo de ser batido. Robben faz o que dele se espera como estrela e artilheiro mais perigoso do time, van Bommel comanda bem a forte defesa, e Sneijder é um verdadeiro toque de genialidade no meio-campo holandês. Mas ainda precisa colocar à prova o seu futebol contra uma equipe realmente de peso, para se alçar ao nível de favorita à conquista do título. Certamente terão essa chance na próxima fase.
Pitacos para as oitavas-de-final (3º dia)
Holanda x Eslováquia: a Holanda é franca-favorita para o segundo duelo europeu dessas oitavas-de-final, seja pela tradição do seu futebol, seja por ter uma equipe de técnica realmente superior ou seja, ainda, pela campanha precisa da fase de grupos, embora não tenha empolgado o torcedor. Terá o retorno do atacante Robben, o que conta muito para ser mais incisiva no ataque, já que na primeira fase foi apenas razoável no setor. A Eslováquia, todavia, vem motivada pelo emocionante jogo que eliminou a Itália, que defendia o título este ano. Também pesa a seu favor o fato de não ter nada a perder, já que é debutante em Copas e já foi até longe demais. Acredito em uma partida amarrada no início, com ênfase no jogo defensivo. Embora os holandeses tenham tudo a seu favor para avançar às quartas-de-final, estou com o pressentimento de que a zebra dará suas caras nesse jogo, e a Eslováquia levará o jogo para a prorrogação e disputa de pênaltis, de onde sairá vitoriosa.
Brasil x Chile: aqui cairá o primeiro sul-americano na Copa. E o mais provável é que seja mesmo o Chile. O Brasil vem de uma campanha irregular, com atuação decepcionante diante da fraca Coreia do Norte, outra bem mais convincente contra a Costa do Marfim, e uma outra sem qualquer emoção contra Portugal. Ainda assim, passou em primeiro do grupo sustentando uma invencibilidade que seu adversário não conseguiu, e conta com a volta de Robinho, Kaká e Elano, peças-chave na criação de jogadas de ataque. O Chile, aliás, é o único sul-americano que, até o momento, já sentiu o gosto de uma derrota nessa Copa. Venceu seus dois primeiros jogos contra adversários que praticamente não o ameaçaram na defesa, mas no primeiro confronto que teve com uma equipe ofensiva, não conseguiu fazer frente. E ainda terá desfalques importantes em sua defesa. A zebra aqui deve passar bem longe do campo, e o Brasil deve atropelar os chilenos, principalmente se eles não jogarem na retranca.
Oitavas-de-final: Argentina 3×1 México
E mais um favorito confirmou sua condição. A Argentina fez valer a superioridade do seu ataque e mandou o México de volta pra casa. Mas o México foi valente, e tem muito o que reclamar da arbitragem, pois num momento em que dominava as ações do jogo, sofreu um gol absurdamente ilegal da Argentina, erro que influenciou diretamente no ambiente da partida e, indiretamente, no resultado final.
O México começou jogando de igual para igual contra a Argentina, mas seus ataques eram mais perigosos, inclusive colocando um chute no travessão. O jogo estava aberto, bem jogado e com chances de abertura de placar para qualquer dos lados. Mas eis que num lance de desatenção do México, a bola sobrou para Messi, que tocou para o gol sem goleiro, e quando o zagueiro mexicano estava para interceptar a bola, Tevez, que estava claramente impedido, cabeceou a bola no fundo da rede mexicana. O juiz confirmou o gol, o lance foi contestado, mas o árbitro não voltou atrás (podia e deveria tê-lo feito). A partir daí, o México se desequilibrou emocionalmente, e logo tomou o segundo gol numa falha clamorosa do zagueiro Osorio. No segundo tempo o México voltou mais equilibrado, recobrou o ímpeto do início do jogo, mas levou o terceiro em um chute certeiro de Tevez. Sentindo a derrota iminente, o México demorou alguns minutos para ameaçar novamente, e faltando quinze minutos para o fim do jogo, aproveitou que a Argentina se retrancou e partiu para cima, fazendo seu gol e ficando muito perto de marcar o segundo. Mas não deu tempo, pois a Argentina soube administrar bem o estrago que fizera à seleção mexicana.
O México, infelizmente, se despede, deixando a sensação de que sua sorte poderia ser outra, e não fosse a poderosa Argentina o seu adversário nas oitavas, chegaria mais longe com justiça. Tem jogadores bastante ousados e habilidosos, como os atacantes Hernandez e Barrera, mas sem dúvida o grande jogador do México na Copa foi o lateral-esquerdo Carlos Salcido. Uma pena vê-lo fora do torneio tão prematuramente.
A Argentina segue seu caminho com 100% de aproveitamento, com o melhor ataque (agora com 10 gols marcados) e com o artilheiro isolado (Higuaín, com 4 gols). Pelo que mostrou até aqui, parece mais disposta a conquistar o título do que Brasil e Espanha, os maiores favoritos antes do início da Copa. Venceu o México com ajuda de um gol irregular, mas foi superior e merece estar nas quartas-de-final, onde terá a oportunidade de se vingar da Alemanha, seu algoz na Copa passada. Seu ataque continua infernal, e nenhuma equipe até agora conseguiu neutralizá-lo. Mas sua defesa continua insegura, podendo ser o calcanhar de Aquiles a ser alvejado por uma equipe de qualidade tão superior quanto a dela.
Oitavas-de-final: Alemanha 4×1 Inglaterra
A Alemanha confirmou seu favoritismo. E com absoluta autoridade, mesmo considerando a ajuda que teve da arbitragem, extremamente incompetente ao não ver a bola entrar no chute de Lampard, o que seria o gol de empate da Inglaterra, fechando o primeiro tempo em 2×2. Apesar do erro, a vitória da Alemanha foi justa e sua superioridade foi incontestável.
Os gols de Klose e Podolski para os germânicos deram a entender que a Alemanha reinaria absoluta no jogo, mas a Inglaterra conseguiu se acertar e acuar a Alemanha no fim do primeiro tempo, descontando com um gol do zagueiro Upson. Nesse momento, a seleção alemã mostrou a mesma desconcentração da derrota para a Sérvia, e poderia ter sérias dificuldades para fazer valer seu melhor futebol se o gol do empate inglês fosse visto pela arbitragem. No segundo tempo, porém, a seleção inglesa não viu a cor da bola, e com a necessidade de partir para o ataque, abriu os espaços para os contra-ataques explorados pela Alemanha com extrema eficiência, no que resultaram os dois gols de Müller, que fecharam a goleada.
A Inglaterra volta pra casa tendo muito a lamentar, não só pelo gol que o juiz não viu, mas pelo futebol medíocre que apresentou durante toda a competição. O time tem deficiências graves em posições-chave como no gol, nas laterais e no ataque, onde Rooney, única referência de fato, não rendeu o esperado, muito provavelmente devido à contusão da qual ainda se recupera. Volta pra casa com uma goleada humilhante nas costas, e não fez por onde merecer outro destino.
A Alemanha segue firme na Copa, mais favorita do que nunca após a apresentação de encher os olhos contra a Inglaterra. Depois de empolgar na goleada contra a Austrália, os alemães cometeram alguns vacilos nos dois jogos seguintes, mas voltou a empolgar agora, diante de um adversário de peso como a seleção inglesa, o que lhe devolve a confiança necessária para brigar pelo título. O atacante Klose, de fato, faz muita falta à equipe, que é outra com ele em campo. Essa dependência no ataque e a instabilidade emocional do time em determinados momentos do jogo são os únicos empecilhos à quarta conquista mundial da Alemanha.
Pitacos para as oitavas-de-final (2º dia)
Alemanha x Inglaterra: apesar de tentar jogar o favoritismo para a Inglaterra, o fato é que a Alemanha é a verdadeira favorita do confronto. Jogou melhor na primeira fase, e mesmo tendo sido brilhante apenas contra a modesta Austrália, seu futebol foi extremamente superior ao mostrado pelos ingleses. A favor da Alemanha, pesa ainda o retorno no eficiente atacante Miroslav Klose, sedento por gols que o levem à condição de recordista em Copas. A Inglaterra precisa mostrar que é capaz de muito mais do que mostrou na primeira fase, quando só marcou dois gols contra adversários tecnicamente bem inferiores. Se as duas equipes se jogarem ao ataque, poderemos ter um dos melhores jogos da Copa até aqui, mas se a preocupação maior for se defender, o jogo tenderá ao 0×0 e decisão por pênaltis. Meu palpite, porém, é de que a Alemanha se classifique vencendo apertado no tempo normal.
Argentina x México: jogo que tem tudo para ser o melhor e mais movimentado das oitavas-de-final. Com a Argentina cheia de gás por ter feito a melhor campanha da primeira fase, e o México, jogando em seu estilo bem próximo ao sul-americano, motivado para se vingar da eliminação para a Argentina na última Copa, a tendência é ter um jogo voltado para o ataque e muito brigado. A rivalidade entre mexicanos e sul-americanos ganhou força com a participação dos clubes do México na Taça Libertadores, por isso acredito que venha a ser o primeiro jogo das oitavas a ter expulsões, o que deixará o campo menos povoado e abrirá espaço para um jogo de muitos gols. Embora o México tenha condições de surpreender, a Argentina deve vencer por ter um ataque muito mais eficiente.